terça-feira, 20 de maio de 2008

A BANDIDA


Quando eu estava estudando a disciplina rádio-jornalismo, no meu curso de Comunicação, nós tivemos que apresentar um programa. Ele poderia ser jornalístico ou de variedades, enfim... como a gente achasse melhor.

O meu grupo então fez o projeto do programa Rosa Shock - O programa feminino que nenhum homem pode perder. Ele era um sucesso na nossa turma.

No segundo e último semestre de rádio, o professor pediu que fosse feito um dingle, uma paródia ou uma rádio-novela. Nós optamos pela rádio-novela e durante mais ou menos uma hora nós ficamos na lanchonete falando coisas sem sentido e fazendo com que as pessoas nos olhassem como se todo mundo ali fosse maluca. Nós decidimos como seria a novela, o enredo, os personagens e eu me encarreguei de escrever tudo.

No dia seguinte eu cheguei lá com a novela A Bandida, que vocês acompanharão aqui e agora.


Personagens:

Teresa Joaquina - A Bandida
Alfredo Henrique - O gêmeo bom
Frederico Antônio - O gêmeo mau
Carlos Manoel - O filho
Theodora Puentes - A prima
Padre Emiliano - O Padre
Charllote Montreal - A amiga bandida
Lupita - A empregada fofoqueira
Pablo - O criado

A BANDIDA

A MANSÃO...

A mansão De La Fuente estava silenciosa, naquele momento. Um silêncio sufocante, desses que precedem as verdadeiras tragédias. O ar estava pesado e, talvez por isso, seus habitantes resolveram isolar-se em seus cômodos, como que se preparando para o que estava por vir...

No quarto lá em cima, uma mulher elegantemente vestida, bordava. Mas, apesar de sua grande habilidade, não entendia o porquê de estar errando o ponto tantas vezes. Aquilo não era um bom sinal.

De repente, a porta do quarto se abre e, com o susto, ela espeta o dedo na agulha.

- Ai!

Encostada na porta com os olhos saltados e a respiração ofegante, estava Theodora Puentes, a prima dos De La Fuente.

- Theodora! O que foi? Aconteceu alguma coisa?

- Uma desgraça, Teresa Joaquina! Uma desgraça!!

Teresa Joaquina levanta num salto da cadeira.

- Aconteceu alguma coisa com meu filho? Aconteceu alguma coisa com Carlos Manoel?!

Theodora avança até ela e lhe estende um telegrama. Com as mãos trêmulas, Teresa Joaquina pega o papel e lê o que está escrito.

- Ah, meu Deus... Não pode ser.

- Sim, Teresa Joaquina. Ele está voltando. Alfredo Henrique chega esta noite.

- Isto é impossível! Ele está longe há tanto tempo... Eu não vou suportar ficar frente a frente com ele novamente. Você sabe que ainda o amo.

- Sim, eu sei.

Teresa Joaquina pega a bolsa e caminha para a porta.

- Mas... para onde você vai, Teresa Joaquina?

- Vou até a igreja. Preciso ver o padre Emiliano.

Ao sair do quarto, já no corredor, ela esbarra em Lupita, a empregada. Mal sabia Teresa Joaquina, que ela ouvia toda a conversa por trás da porta. E como já ia longe não pôde ouvi-la dizer:

- Então quer dizer que o seu Alfredo Henrique retorna esta noite. Humm... Dona Charllote vai gostar muito de saber disso.

O APARTAMENTO DE CHARLLOTE...

Na cobertura de um prédio luxuoso, um corpo se estendia numa espreguiçadeira, à beira da piscina. Era um corpo de mulher, uma bela mulher de longas madeixas loiras. Ela usava óculos escuros e aproveitava a hora de pouco sol, quando o criado lhe trouxe o telefone em uma bandeja de prata.

- Telefone para a senhorita.

- Eu avisei para não ser incomodada!

- Mas... disseram que era urgente.

- Quem é?!

- Não quis dizer o nome, senhorita. Disse apenas que era a... prima da Finlândia.

- Ah... sendo assim... Eu vou atender. Anda! Sai logo da minha frente!

Quando o criado já se encontrava longe o suficiente, ela atendeu o telefone.

- Acho bom ter algo importante desta vez, Lupita. Ultimamente você só tem me dado informações inúteis.

- Desta vez é muito útil. U-ti-lís-si-ma, dona Charllote. A senhorita nem vai acredi...

- Deixa de enrolação e fala logo, estaferma!

- Ah... É o seu Alfredo Henrique. Ele chega esta noite.

- E quem mais sabe disso?

- Ah, só a senhorita Theodora e a Senhora De La Fuente: Dona Teresa Joaquina.

- Então Frederico Antônio não sabe que o irmão gêmeo dele está para chegar?

- Não, senhorita.

- Mas agora vai saber...

Charllote Montreal desligou o telefone e gritou para o criado:

- Pablo! Prepare o carro que eu vou sair!

NA IGREJA DO PADRE EMILIANO...

Teresa Joaquina entra apressada na igreja e encontra padre Emiliano ajoelhado no altar, fazendo suas orações.

- Padre!

- Teresa Joaquina! Mas o que há de errado, filha? Aconteceu alguma coisa?

- Uma tragédia, padre! Uma tragédia!

Padre Emiliano a leva até um dos bancos da igreja e pede que se sente.

- Diga-me, filha. O que está acontecendo?

- É Alfredo Henrique, padre. Ele estará de volta esta noite.

- Ah, não... Mas isso é terrível!

- Sim, padre. Frederico Antônio odeia o irmão, eles já não se falam há vinte anos. O que Alfredo Henrique poderia vir fazer aqui? Será que ele soube?

- Não. Ou você contou para mais alguém?

- Não, só para o senhor e em confissão.

- Então, só nos resta esperar, filha.

- Ah, padre...

DE VOLTA À MANSÃO DE LA FUENTE...

No escritório da mansão De La Fuente, um homem estava sentado atrás da escrivaninha. Foi quando Charllote Montreal adentrou o recinto.

- Olá, Frederico Antônio!

- Charlote! Mas que bom vê-la!

Charllote sentou-se na cadeira à sua frente.

- Eu acho que para você não vai ser muito bom, querido. Eu não trago boas notícias.

- E que notícias são essas?

(Um minuto de suspense)

- Seu irmão gêmeo, Alfredo Henrique, chega esta noite.

- O quê?! Não pode ser! Como é que você sabe disso?

- Chegou um telegrama, hoje, avisando sua chegada.

- Mas como?! - e bate na mesa - Uma notícia dessas e eu não sou avisado! Na minha própria casa!

- É que a tonta da sua prima pegou o telegrama e foi correndo mostrar para a sua mulherzinha, Teresa Joaquinha. Eu posso apostar que as duas estão armando alguma coisa. Você sabe que Teresa Joaquina ainda ama Alfredo Henrique (pausa). E se ele está voltando para fugirem juntos?

- Não!! Depois de tudo o que fizemos para separá-los, eu não permitirei que fiquem juntos! Jamais...

Ao sair do escritório Charllote encontra Teresa Joaquina, que acaba de chegar.

- Charlote! O que faz aqui?

- Anh... Vim vê-la querida. Como está você?

- Angustiada, Charllote. Muito angustiada. Venha até meu quarto que lhe contarei tudo.

Já no quarto, Teresa Joaquina conta o acontecido para Charllote, e esta, reage como se de nada soubesse.

- Oh, querida, isto é terrível! E o que você pretende fazer?

- Ah, eu... (e a campainha toca)

Ao soar da campainha, todos saem de seus esconderijos para ver quem acaba de chegar.

Teresa Joaquina e Charllote paralisam no meio da escada, Frederico Antônio pára na porta do escritório e Theodora vem da sala de jantar, enquanto Lupita abre a porta. E eis que surge...

- Alfredo Henrique! Você aqui?!

- Sim, meu irmão. Eu voltei.

O FIM...

Na sala de estar dos De La Fuente, todos se perguntam sobre o motivo que trouxe Alfredo Henrique de volta. O silêncio, carregado de dúvidas, só é interrompido com a chegada de Carlos Manoel.

- Mas o que é isso? Reunião de família e eu nem fui convidado?

Carlos Manoel pára de repente com a cena que vê.

- Ah, meu Deus... Estou enxergando mal ou estou vendo mesmo dois de você, papai?

- Não filho. Este é meu irmão gêmeo: Alfredo Henrique.

Frederico Antônio se dirige então ao irmão, para esclarecer de uma vez por todas, as dúvidas que o afligem.

- Mas então, diga-nos, Alfredo Henrique, o que o trouxe de volta até aqui?

- Eu vou ser direto, Frederico Antônio (suspense). Eu sei que você está falido e afundando em dívidas de jogo.

(Segue o burburinho na sala)

- Oh! O quê?! Não pode ser!

- Mas isto é uma infâmia, calúnia!

- Você sabe que não, Frederico Antônio.

Teresa Joaquina pergunta:

- Isso é verdade, Frederico Antônio?

- Mas é claro que não, mamãe! Este homem está mentindo!

Carlos Manoel avança para Alfredo Henrique, ardendo de fúria.

- Você é um mentiroso! Inveja a felicidade do meu pai! Sempre invejou!

- Mas que história é essa? - Pergunta Alfredo Henrique, confuso.

- Não seja fingido! Meu pai me contou tudo!

- Tudo o quê?!

Alfredo Henrique fica confuso com aquelas palavras, assim como os outros, ali presentes.

- Que você fez de tudo para seduzir minha mãe, impedindo-os de se casarem. Você é um monstro! Eu o odeio! Eu o odeio!

A REVELAÇÃO...

Teresa Joaquina, no ápice do seu desespero, corre até o filho e se agarra em seus braços sacudida pelos soluços.

- Não!! Não diga uma coisa dessas que é pecado mortal! Você não pode odiá-lo! Não pode!

- Por que, Teresa Joaquina? - pergunta Frederico Antônio.

- Oh! Eu não suporto mais guardar esse segredo comigo! Não suporto! (mais calma) Frederico Antônio (pausa) eu tenho uma revelação a fazer... (suspense) Carlos Manoel (pausa) não é seu filho.

(Mais burburinho)

- Oh! O quê?! Não pode ser!

- Carlos Manoel (pausa) seu verdadeiro pai (pausa) é Alfredo Henrique.

- Sua bandida! (Plaft!)

- Ah!

Frederico Antônio estapeia o rosto de Teresa Joaquinha, tamanha era a raiva que sentia.

Charllote avança na direção de Teresa Joaquina e também estapeia o seu rosto.

- Eu sabia que você não valia nada! Esse tempo todo você estava enganando todo mundo! Sua bandida! (Plaft!)

- Ah!

Enquanto isso, Frederico Antônio digere a notícia que acaba de receber. O menino que criara, não era seu filho. A raiva era tanta que ele desatou a desabafar tudo o que lhe vinha ao peito.

- Por isso você aceitou casar comigo tão depressa! Já esperava um filho dele! Você bem que mereceu tudo o que eu fiz para separá-la de Alfredo Henrique. (TAN-DAN!)

(Mais burburinho na sala)

- Oh! O quê?! Não pode ser!

- Sim, foi isso mesmo que vocês ouviram. EU armei tudo para separá-los. E com a ajuda DELA: Charllote Montreal!

Frederico Antônio aponta para Charllote e esta fica surpresa ao ser desmascarada.

(Há mais burburinho na sala)

- Oh! O quê?! Não pode ser!

Frederico Antônio se retira para o escritório e se tranca lá dentro.

Charllote Montreal corre até Alfredo Henrique e se ajoelha aos seus pés.

- Mas eu fiz tudo por amor, Alfredo Henrique! Eu sempre o amei! Eu o amo! Eu o amo!

Afredo Henrique afasta Charllote com um gesto brusco e se aproxima de Teresa Joaquina.

- Todo esse tempo fingindo ser minha amiga...

Alfredo Henrique segura nas mão dela e olha no profundo dos seus olhos.

- Sim, Teresa Joaquina. Nesses vinte anos, fomos vítimas dessa trama sórdida de intrigas, feita pelo meu irmão gêmeo e Charllote Montreal. Todo esse tempo sem você (pausa) e meu filho.

- Papai!

- Filho!

Teresa Joaquina, Alfredo Henrique e Carlos Manoel se abraçam emocionados quando se ouve o estampido. Todos se assustam.

- O que foi isso?

- Acho que foi um tiro, mamãe.

(Há burburinho na sala)

- Oh! O quê?! Não pode ser!

Correm todos para o escritório. Foi de lá que veio o barulho. Quando Teresa Joaquina abre a porta, vê a cena aterradora. Chocada, esconde o rosto no ombro de Alfredo Henrique. No chão do escritório, está o corpo de Frederico Antônio e em sua mão, um revólver. Theodora Puentes, a prima, corre até ele e se atira a seus pés, chorando convulsivamente:

- Ele está morto! Ele está morto!

(Há burburinho no escritório)

- Oh! O quê?! Não pode ser!

O padre Emiliano chega neste momento, sem entender aquela aglomeração no escritório.

- Mas o que está acontecendo?

Vendo aquele retrato de horror: o corpo de Frederico Antônio, sem vida, em cima de uma poça de sangue, depois de ter dado um tiro na cabeça, o padre pára de repente.

- Minha Nossa Senhora de Guadalupe... Mas o que aconteceu aqui?

Teresa Joaquina se aproxima do padre.

- Acabou tudo, padre Emiliano. Está tudo acabado. Ele pôs fim à própria vida...
FIM

E aguardem as próximas novelas: A SOFREDORA, A PROFESSORA, A INDIGNADA, LÁGRIMAS TRANCAFIADAS, A ÓRFÃ DAS PRADARIAS e similares.

Até a próxima!

5 comentários:

Maria Cecília Brito disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Manoel Filho disse...

Então temos uma escritora e passado-presente-futura novelista, não é, Lanussa?! Parabéns!! Você se supera e me surpreende a cada dia...

Cada dia que passa me apaixono um pouco mais por você e seus textos, artigos e agora... novelas.

Uma história maravilhosa, surpreendente, comovedora... Me prendeu do começo ao fim. Parabéns.. Parabéns e... Parabéns!!!

Oh! O quê?! Não pode ser!

Lanussa Ferreira disse...

"Maravilhosa, surpreendente, comovedora..." Acho que nem tanto, Manoel. Foi só uma brincadeira e uma paródia das milhares de novelas mexicanas que a gente vê por aí o tempo todo, rsrs. Foi a minha versão.

Jonathas disse...

Essa muié é um talento, de blogueira a escritorea de novela, que assenção hein!

Parabéns!!!!!!!

Arlinda disse...

caracoles...rsrs...